CRIADO PARA A SUA EDIFICAÇÃO

Sejam bem vindos! Aqui a verdade é exposta sem maquiagem. A Bíblia é a autoridade para falar de Deus e da Sua relação com as suas criaturas.

"Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna" (Atos 13.48)

Confissão de Fé

Creio que a justificação e a salvação do homem têm como causa meritória a justiça de Cristo e o seu sacrifício perfeito. A salvação dos seres humanos caídos é pela graça de Deus somente, tem como instrumento somente a fé, tem como fim somente a glória de Deus, tendo como a única fonte da verdade e a única autoridade, em relação a esse assunto, somente as Escrituras, Antigo e Novo Testamentos, num total de 66 livros.

Creio que os “cinco Solas” são a verdade bíblica:

“Sola Scriptura”. Somente as Escrituras!
“Solus Christus”. Somente Cristo!
“Sola Gratia”. Somente a graça!
“Sola Fide”. Somente a fé!
“Soli Deo Gloria”. Somente a glória de Deus!

Creio que a salvação é, do começo ao fim, uma obra de Deus (monergismo) e que o homem nada pode fazer para cooperar com Deus para a sua própria salvação. Essa visão está claramente exposta nos chamados “cinco pontos do calvinismo”:

  • Depravação total – A queda de Adão afetou a totalidade da pessoa do homem.
  • Eleição incondicional – A eleição é baseada exclusivamente na vontade de Deus e não na presciência de fé ou obras.
  • Expiação limitada – A redenção foi obtida por Cristo para os eleitos.
  • Graça irresistível – A regeneração pelo Espírito Santo é eficaz para os eleitos.
  • Perseverança de Deus junto aos Santos – Deus vai, pela graça, completar o que Ele começou na regeneração.

Creio que a Bíblia toda, Antigo e Novo Testamentos, constitui uma unidade, que a pessoa de Jesus Cristo, Sua obra e Seu reino, constituem o tema central da Bíblia e que Jesus Cristo é o único meio de salvação em todos os tempos, tanto antes como depois da Sua primeira vinda, e, portanto, somente Ele salvou todos os eleitos em todas as eras.

Creio que a Bíblia toda tenha sido inspirada por Deus, sendo assim infalível, e que constitui a única autoridade no que se refere à genuína religião, e que Ele nos deu como diretriz com relação à fé e à conduta em todas as áreas da nossa vida.


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SOBRE A VIDA CRISTÃ


INSTITUTAS CAPÍTULO XVII (COMPLETO)

Sobre a Vida Cristã

1. Introdução

[1539] Dispondo-me a descrever em que consiste a vida do cristão, sei que entro num assunto amplo e muito diversificado, que poderia encher um grande volume, se eu quisesse abranger tudo quanto contém. Sabemos muito bem como são prolixas as exortações dos doutores antigos quando tratam de alguma virtude específica. Não é que simplesmente os que exageram no falar tenham culpa disso, porque sobre qualquer virtude que se queira apreciar e recomendar é tal a abundância de material disponível que parecerá ao mestre que não discutiu bem o assunto se não consumiu nisso muitas palavras. Bem, não é minha intenção estender-me sobre a doutrina da vida cristã de que pretendo tratar apresentando detalhadamente cada virtude e fazendo de cada uma delas longas exortações. Isso pode ser encontrado em livros de outros autores, principalmente nas homilias ou sermões populares dos doutores antigos. Quanto a mim, considero suficiente mostrar certa ordem pela qual o cristão possa ser conduzido e dirigido à verdadeira meta que consiste em ordenar adequadamente a sua vida.

2. Método e limites

[1541] Eu me contentarei, pois, em apresentar uma breve regra geral que lhe sirva de parâmetro para orientar todas as suas ações. [1539] Talvez tenhamos ocasião de, noutra oportunidade, fazer deduções e aplicações como as que encontramos nos sermões dos doutores antigos. O trabalho que temos em mãos exige que exponhamos uma doutrina simples e clara dentro do menor espaço possível.

3. Comparação da filosofia com a Bíblia

Assim como os filósofos tratam de algumas finalidades da honestidade e da retidão das quais deduzem os deveres particulares e todas as ações próprias de cada virtude, assim também a Escritura tem sua maneira de agir neste assunto, maneira aliás muito melhor e mais certa que a dos filósofos. A única diferença é que eles, em sua ambição, exibiram a perspicuidade ou clareza mais notável que puderam, para que se vissem a ordem e a disposição empregadas por eles e assim mostrassem a sua perspicácia. Ao contrário, o Espírito Santo ensina sem exibida ostentação, e nem sempre nem estritamente observa alguma ordem e algum método. Todavia, quando ocasionalmente os emprega, significa que não os devemos desprezar.

4. Divisão bíblica do assunto

Pois bem, a ordem da Escritura da qual falamos consiste de duas partes. Uma visa imprimir em nosso coração o amor pela justiça, para o qual por natureza não temos nenhuma inclinação. A outra visa dar-nos uma regra definida para que, seguindo-a, não fiquemos vagando sem rumo certo e não edifiquemos mal a nossa vida.

Quanto à primeira parte, a Escritura tem muitas razões excelentes para inclinar o nosso coração ao amor pela retidão. Temos feito menção de algumas dessas razões em diversos lugares da nossa obra, e tocaremos nalgumas outras aqui.

5. O padrão divino: santidade

Que fundamento seria melhor para começarmos do que admoestar-nos no sentido de que devemos ser santificados porque o nosso Deus é santo? Fortalecemos o argumento com a lembrança de que, havendo por assim dizer, vivido espelhados como ovelhas desgarradas e dispersas pelo labirinto deste mundo, ele nos recolheu para juntar-nos a si. Ao sabermos que Deus promove esta sua união conosco, devemos lembrar que o laço desta união é a santidade. Não que pelo mérito da nossa santidade passemos a gozar da companhia ou da comunhão com o nosso Deus, visto que primeiro é preciso que nos acheguemos a ele para que ele derrame a santidade sobre nós, mas sim que, como não há nenhuma associação da sua glória com a iniqüidade e com a impureza, temos que nos assemelhar a ele porque lhe pertencemos.

Por isso a Escritura nos ensina que esta é a finalidade da nossa vocação, finalidade à qual devemos estar sempre atentos, se queremos responder positivamente ao nosso Deus. Por que, de que valerá livrar-nos da impureza e da corrupção em que estávamos imersos, se o tempo todo ficamos querendo revolver-nos de novo nessa lama? Além disso, a Escritura nos admoesta no sentido de que, se desejamos estar na companhia do povo de Deus, temos que habilitar em Jerusalém, na sua santa cidade. Cidade que, como ele consagrou e dedicou à sua hora, também não é lícito que seja contaminada e corrompida por habitantes impuros e profanos. Daí decorrem sentenças como esta: “Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade” [Sl 15.1,2; 24.3; Is 35.8etc.; Rm 6.1-3,13,17-23].

6. Cristo, nosso Redentor e nosso Modelo

Acresce que, para nos despertar mais vivamente, a Escritura nos demonstra que, assim como Deus em Cristo nos reconciliou consigo, assim também ele o constituiu em exemplo e padrão ao qual devemos amoldar-nos. Que aqueles que consideram que somente os filósofos tratam devidamente da doutrina moral me mostrem em seus livros um método que seja tão bom como o que eu acabo de citar. Quando eles querem exortar-nos quanto podem à virtude, outra coisa não nos passam senão que vivamos como convém à natureza.

Já a Escritura nos leva a uma fonte melhor de exortação, quando não somente nos ordena que reportemos toda a nossa vida a Deus, seu autor, mas, depois de nos ter advertido de que nos degeneramos em relação à verdadeira origem da nossa criação, acrescenta que Cristo, reconciliando-nos com Deus, seu Pai, nos é dado como um exemplo de inocência e cuja imagem deve ser representada em nosso viver. Que se poderia dizer com maior veemência e com maior eficácia? Que outra coisa mais se poderia desejar? Porque, se Deus nos adota como seus filhos, com a condição de que a imagem de Cristo se veja em nossa vida, se abandonarmos a justiça e a santidade, não somente estaremos abandonando o nosso Criador com a mais negligente deslealdade, mas também estaremos renunciando a ele como Salvador.

Por conseguinte, a Escritura toma tempo e espaço para nos exortar quanto a todos os benefícios que nos vêm de Deus e a todas as partes da nossa salvação, como quando diz:

Visto que Deus nos é dado como Pai, mereceremos ser repreendidos por nossa grande ingratidão, se não nos comportarmos como seus filhos. Visto que Cristo nos purificou e nos lavou com o seu sangue, e nos comunicou está purificação pelo Batismo, é mister que não nos maculemos com nova impureza. Visto que ele nos uniu a si e nos enxertou em seu corpo, devemos zelosamente cuidar que não nos contaminemos de modo algum, já que somos seus membros. Visto que ele, que é a nossa Cabeça, subiu ao céu, é de toda conveniência que nos desfaçamos de todo apego às coisas terrenas, para aspirarmos de todo coração à vida celestial. Visto que o Espírito Santo nos consagrou para sermos templos ou santuários de Deus, é necessário que façamos tudo o que pudermos para que a glória de Deus seja exaltada em nós, e, por outro lado, para que não nos deixemos manchar por nenhuma forma de contaminação do pecado. Visto que a nossa alma e o nosso corpo foram destinados à imortalidade do reino de Deus e à incorruptível coroa da sua glória, é necessário que nos esforcemos para conservar alma e corpo puros e imaculados, até o dia Senhor.

Aí estão fundamentos verdadeiramente bons e próprios para que sobre eles edifiquemos a nossa vida. Não se vai encontrar nada parecido em todos os filósofos, porque eles nunca vão além dos limites da dignidade meramente natural do homem, quando procuram mostrar qual é o seu dever.

7. Mensagem aos cristãos nominais

Nesta altura devo dirigir a palavra àqueles que, não tendo nada de Cristo exceto o título, entretanto querem ser reconhecidos como cristãos. Que atrevimento deles, quererem gloriar-se em seu sacrossanto nome! Pois só têm relação de amizade com Cristo aqueles que o conhecem verdadeiramente mediante a Palavra do evangelho. Pois bem, o apóstolo Paulo nega que alguém possa receber o correto conhecimento de Cristo, a não ser aquele que aprendeu a despojar-se “do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano”, sendo então revestido do novo homem [Ef 4.20-24].

Vê-se, pois, que é baseados em ensinamentos falsos que esses tais dizem que conhecem a Cristo. E com isso lhe fazem grande injúria, por mais belas que sejam as suas palavras.

Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas de vida. E, diferentemente das outras disciplinas, não se apreende só pela mente e pela memória, mas deve envolver e dominar a alma e ter como sede e receptáculo as profundezas do coração. De outra forma, o evangelho não será recebido adequadamente como deve ser. Portanto, ou que tais cristãos nominais deixem de se gabar do que não são, com o que afrontam vergonhosamente a Deus, ou que tratem de mostrar que são discípulos de Cristo.

Demos o primeiro lugar à doutrina em matéria de religião, uma vez que constitui o princípio da nossa salvação. Mas, para que nos seja útil e frutífera, também é necessário que ela nos penetre o íntimo do coração e demonstre o seu poder em nossa vida, e que até mesmo nos transforme fazendo-nos conformes à sua própria natureza. Se os filósofos com razão ficam indignados contra aqueles que, declarando-se amantes da arte, a que eles chamam mestra da vida, contudo a convertem numa loquacidade sofística, muito maior razão temos nós para detestar os palradores que se contentam em ter o evangelho na boca, desprezando-o totalmente em sua maneira de viver! Pois a eficácia do evangelho deveria penetrar as profundezas do coração e arraigar-se na alma, cem mil vezes mais que todas as exortações filosóficas, que, em comparação, não tem grande vigor!

8. Reconhecendo limitações, o cristão deve aspirar a perfeição requerida por Deus.

Não exijo que a vida do cristão seja um evangelho puro e perfeito, embora o devamos desejar e esforçar-nos por esse ideal. Não exijo, pois, uma perfeição cristã de tal maneira estrita e rigorosa que me leve a não reconhecer como cristão a quem não tenham alcançado. Porque, se fosse assim, todos os homens do mundo seriam excluídos da igreja, visto que não se encontra nem um só que não esteja bem longe dela, por mais que tenha progredido. E a maioria ainda não avançou nada ou quase nada. Todavia, nem por isso os devemos rejeitar. Que fazer então?

Certamente devemos ter diante dos nossos olhos como nossa meta a perfeição que Deus ordena, para a qual todas as nossas ações devem ser canalizadas e à qual devemos visar.

Repito: temos que nos esforçar para chegar à meta. Sim, pois não é lícito que compartilhemos com Deus apenas aceitando uma parte do que nos é ordenado em sua Palavra e deixando o restante a cargo da nossa fantasia. Porque Deus sempre nos recomenda, em primeiro lugar, integridade [Gn 17.1]. Com essa palavra ele se refere a uma pura singeleza e sinceridade de alma, destituída e limpa de toda fantasia ou ficção e contrária à dobrez do coração. Como, porém, enquanto estamos nesta prisão terrena, nenhum de nós tem a presteza necessária, e, na verdade a maior parte de nós é tão fraca e débil que vacila e coxeia pouco podendo avançar, prossigamos avante, cada um segundo a sua pequena capacidade, e não deixemos de seguir o caminho no qual começamos.

Ninguém caminhará tão pobremente que não avance ao menos um pouco por dia, ganhando terreno.

Portanto, não cessamos de buscar a meta proposta, aproveitando constantemente os benefícios da vereda do Senhor. E não nos desanimemos, ainda que o nosso proveito seja diminuto. Mesmo que o nosso progresso não corresponda ao que imaginávamos, o esforço não foi totalmente perdido quando se vê que o dia de hoje supera o de ontem. Somente fixemos os nossos olhos na meta com pura e sincera simplicidade, e façamos todos os esforços possíveis para alcançá-la, sem acariciar o nosso ego com vã adulação nem desculpar os nossos erros morais. Esforcemo-nos sem cessar, empenhado em que cada dia sejamos melhores do que somos, até alcançarmos a bondade suprema, que devemos buscar durante toda a nossa vida. Perfeição que obteremos quando, despojados da fraqueza da nossa carne, seremos feitos plenamente partícipes dela, isto é, quando Deus nos acolher para vivermos para sempre em sua companhia.

9. Não somos nossos; somos do Senhor

[1541] Passemos agora à segunda parte. Embora Leis de Deus tenha, como tem, um excelente método e um arranjo bem ordenado com vistas à edificação da nossa vida, não obstante pareceu bem ao nosso bondoso Mestre celestial formar os seus por meio de uma doutrina mais sublime que a que nos é comunicada em sua Lei.

Então, o princípio dessa forma de instrução consiste em determinar que é dever dos crentes oferecerem seu corpo “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, que constitui o culto legítimo que lhe devemos prestar [Rm 12.1]. Deste princípio decorre a exortação a que eles não se acomodem à imagem deste século, mas que sejam transformados pela renovação da sua mente, para buscar e experimentar a vontade de Deus. Temos aí já um importante motivo para dizer que somos pessoas consagradas e dedicadas a Deus para que não pensemos, nem meditemos, nem façamos coisa alguma que não seja para a sua glória.

Porque não é lícito aplicar algo sagrado a uso profano. Ora, se nós não nos pertencemos, mas somos do Senhor, vê-se claramente o que devemos evitar para não errarmos, e para onde devemos canalizar todas as ações que praticarmos em nosso viver.

Não somos de nós mesmos; portanto, não permitamos que a nossa razão e a nossa vontade exerçam domínio sobre nossos propósitos e sobre nossas ações. Não somos de nós mesmos; portanto, não tenhamos como nosso objetivo buscar o que nos traz proveito à carne. Não somos de nós mesmos; esqueçamo-nos, pois, de nós mesmos, quando possível, e de tudo o que nos cerca.

E agora: nós somos do Senhor; vivamos e morramos por ele e para ele. Somos do Senhor; que a sua vontade e a sua sabedoria presidam a todas as nossas ações. Somos do Senhor; relacionemos todos os aspectos da nossa vida com ele como o nosso fim único. Ah, quão proveitoso será para o homem que, reconhecendo que não é dono de si, negue à sua razão o senhorio e o governo de si mesmo e o confie a Deus! Porque, assim como a pior praga, capaz de levar os homens à perdição e à ruína, é se comprazerem a si mesmo, assim também o único e singular porto de salvação não está em o homem julgar-se sábio, como tampouco em querer nada de sua vontade própria, mas em seguir unicamente ao Senhor [Rm 14.7,8].

10. Passos da vida cristã e do serviço a Deus

O primeiro passo é, pois, que nos afastemos de nós mesmos a fim de aplicarmos todas as forças da nossa mente ao serviço de Deus. Chamo serviço não somente o que consiste na obediência à Palavra de Deus, mas também aquele pelo qual o entendimento do homem, despojado dos seus próprios sentimentos, converte-se inteiramente e se sujeita ao Espírito de Deus. Essa transformação, que o apostolo Paulo chama renovação da mente [Rm 12.1, ver também Ef 4.22-24], tem sido ignorada por todos os filósofos, apenas de constituir o primeiro ponto de acesso à vida. Eles ensinam que somente a razão deve reger e dirigir o homem, e pensam que só a ela devemos ouvir e seguir; com isso, atribuem unicamente à razão o governo da vida. Por outro lado, a filosofia cristã pretende que a razão ceda e se afaste, para dar lugar ao Espírito Santo, e que por ele seja subjugada e conduzida, de modo que já não seja o homem que viva, mas que, tendo sofrido com Cristo, nele Cristo viva e reine [Gl 2.19,20].

11. Buscar não o que nos agrada, mas o que agrada e glorifica Deus.

Disso decorre a segunda parte de que falamos, que não busquemos as coisas que nos agradam, mas as que agradam a Deus e que se prestam para exaltar a sua glória.

Temos aqui também uma grande virtude, no sentido de que, praticamente nos esquecemos de nós mesmos, ou ao menos procurando não nos preocupar com nós mesmos, apliquemos e dediquemos com fidelidade nossos diligentes esforços para seguir a Deus e obedecer aos seus mandamentos. Porque, quando a Escritura nos proíbe preocupar-nos particularmente com nós mesmos, não somente elimina do nosso coração a avareza, a ambição de poder e de receber grandes honras e alianças impróprias, mas também quer extirpar de nós toda ambição e apetite de glória humana, e outros males ocultos. É, pois, necessário que o cristão se disponha de tal maneira a que todo o seu pensamento se dirija às boas relações que deve manter com Deus a vida toda. Seja esta a sua preocupação: consciente de que terá que prestar contas de todas as suas obras a Deus, dirigirá a ele todas as suas intenções e nele as manterá fixas.

Uma razão disso é que todo aquele que tem Deus em sua mente em todas as obras que pratica facilmente evita que o seu espírito se deixe levar por pensamentos e projetos vãos.

Refiro-me à abnegação ou à renúncia de nós mesmos que Cristo com tanto empenho e zelo exige [Mt 16.24] de todos os seus discípulos, como sua primeira aprendizagem. Então, uma vez ocupado nesse exercício o coração do homem, logo são exterminados dele o orgulho, a arrogância e a ostentação, como também a avareza, a intemperança, a superfluidade e a busca de prazeres, juntamente com todos os demais vícios e males gerados pelo amor a nós mesmos.

Por outro lado, onde não reina este espírito de abnegação, ou o homem se extravasa em todo tipo de vilania sem o menor pudor, ou, caso haja alguma aparência de virtude, esta é corrompida por uma pecaminosa cobiça de glória. Pois que me mostrem um homem que exerce benignidade gratuitamente, se não renunciou a si mesmo, segundo o mandamento do Senhor. Porque aqueles que não se deixam levar por essa cobiça, no mínimo seguem a virtude com vistas a receberem louvor. Mesmo os filósofos que têm lutado para mostrar que se deve buscar a virtude por amor de virtude, de tal maneira se têm inflado de orgulho que se vê que não desejam a virtude por outro senão o de terem com isso motivo para orgulhar-se.

Pois bem, nem os ambiciosos que buscam glória mundana nem os que se enchem de presunção interior agradam a Deus, tanto assim que ele declara contra os primeiros que já receberam sua recompensa neste mundo, e contra os últimos, que estão mais longe do reino de Deus que os publicanos e os devassos. Contudo, ainda não demonstramos com suficiente clareza quantas coisas impedem o homem que não se negou a si mesmo de se dedicar à real prática do bem. Os antigos já diziam com razão que há um mundo de vícios ocultos na alma do homem. E não encontraremos remédio para isso, a não ser que, renunciando ou negando a nós mesmos e deixando de buscar o que nos agrada, impulsionemos e dediquemos o nosso entendimento a buscar as coisas que Deus exige de nós, e a buscá-las unicamente porque lhe são agradáveis.

12. Abnegação com vistas aos homens e mormente a Deus.

Devemos notar que a abnegação ou renúncia de nós mesmos em parte visa ao bem dos homens e em parte, na verdade principalmente, visa à nossa relação com Deus. Ora, quando a Escritura nos ordena que nos portemos de tal maneira para com os homens que os prefiramos em honra a nós próprios e que nos empenhemos com toda a lealdade a promover o seu progresso, ela nos dá mandamentos que o nosso coração não será capaz de cumprir, se primeiro não for esvaziado dos seus sentimentos naturais. Porque somos todos tão cegos e tão dominados pelo amor de nós mesmos que não há ninguém que não julgue ter todos os bons motivos para elevar-se acima dos demais e para menosprezá-los a fim de exaltar-se a si próprio. Se Deus nos concede algum dom digno de apreço, mediatamente, à sombra disso, o nosso coração se eleva. E não somente nos inflamos, mas quase nos arrebentamos de orgulho.

Nossos vícios e defeitos, dos quais estamos cheios, tratamos de zelosamente ocultar dos demais, e procuramos fazer com que lhes pareçam pequenos e leves. Às vezes até os consideramos virtudes. Quando se trata de graças ou dons por nós recebidos, tanto os valorizamos que até os fazemos objeto de extasiada contemplação. Mas se tais dons se manifestam noutras pessoas, e mesmo dons maiores que nos vemos constrangidos a reconhecer, procuramos obscurecê-los ou então os desprezamos o mais que podemos. Por outro lado, quando se manifestam vícios e defeitos nos outros, não nos contentamos em fazer-lhes severa observação, mas os aumentamos odiosamente. Daí procede esta arrogante insolência – que cada um de nós, como se estivesse isento da condição humana comum, ambiciona preeminência, colocando-se acima de todos os demais e a todos, sem exceção, considera inferiores a si. Os pobres cedem aos ricos; os plebeus, aos nobres; os servos, a seus senhores; os indoutos, aos sábios – mas não há ninguém que, no intimo do seu coração, não alimente a fantasia de que tem dignidade superior à de todos os demais.

Dessa forma, cada qual em sua categoria se vangloria e mantém um reino em seu coração.

Porque, atribuindo a si mesmos valores a seu bel-prazer, critica o espírito e os costumes dos demais. E se chegam a travar contenda, o veneno de cada um logo aparece. Há muitos que mantêm certa aparência de mansidão e de modéstia, em quanto não são contrariados por coisa alguma. Mas, poucos são os que continuam a mostrar brandura e modéstia quando provocados e irritados. E de fato não se pode alterar isso, a não ser que a praga mortal do amor próprio e da exaltação própria seja arrancada do fundo do coração, como determina o ensino da Escritura. Se dermos ouvidos à sua doutrina, esta nos fará lembrar que todas as graças que Deus nos concede não são propriamente nossas, mas são dádivas gratuitas da sua imensa generosidade.

Portanto, quem se orgulha demonstra ingratidão. Por outro lado, constantemente reconhecendo os nossos vícios e defeitos, somos levados a proceder com humildade. Com isso nada nos restará de que nos orgulharmos, mas, antes, haverá forte motivo para que nos rebaixemos e nos humilhemos. Além disso, também nos é ordenado que todos os dons de Deus que vejamos em nossos semelhantes sejam por nós de tal maneira exaltados e reverenciados que, em função deles, honremos as pessoas nas quais eles residem. Seria uma grande maldade querer despojar um homem da honra que Deus lhe deu. Acresce que nos é ordenado que não fiquemos observando e anotando as faltas do próximo, mas que as cubramos; não por adulação, mas para que não insultemos o faltoso, visto que lhe somos devedores de amor e de honra. Decorre disso que a todos aqueles com quem nos relacionarmos, não somente tratemos com modéstia e moderação, mas também com brandura e companheirismo. Tenha-se por certo que ninguém jamais chegará por outro caminho à verdadeira mansidão, a não ser dispondo-se de coração a rebaixar-se a si mesmo e a exaltar os outros.

13. A abnegação requer diligente empenho

Quão difícil é cumprir o dever de trabalhar pelo proveito do próximo! Se não deixarmos de lado a consideração de nós mesmos e não nos despojarmos de todo afeto ou interesse carnal, não conseguiremos fazer nada nessa esfera. Porque como havemos de cumprir os deveres que o apostolo quer que cumpramos com amor, se não renunciarmos a nós mesmos para dedicar-nos de coração aos nossos semelhantes? “O amor é paciente”, diz ele, “é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses”, etc. Ainda que ele só nos ordenasse que não busquemos nosso próprio proveito, ainda teríamos que forçar a nossa natureza, que de tal modo nos leva a amar a nós mesmos que não permite com facilidade que deixemos de procurar benefício próprio para atender diligentemente ao nosso próximo. Ou melhor, não nos deixa perder nossos direitos para cedê-los ao nosso próximo.

Ora, a Escritura, para nos persuadir a respeito, lembra-nos que tudo o que recebemos da graça do Senhor nos foi entregue sob esta condição: que o tornemos parte do bem comum da igreja. E, portanto, que o uso legítimo dos bens recebidos consiste em compartilhá-los fraternal e liberalmente, visando ao bem do nosso próximo. Para levar a efeito esse compartilhar, não se pode achar melhor regra nem mais certa do que quando se diz: tudo o que temos de bom nos foi confiado em depósito por Deus, e, nessas condições, deve ser distribuído para o bem dos demais.

E a Escritura vai além, comparando as graças e dons que cada um de nós tem com as qualidades ou funções próprias de cada membro do corpo humano. Nenhum membro tem sua faculdade independentemente, e não a aplica para seu beneficio particular, mas para proveito comum, e não recebe nenhum beneficio que não proceda do benefício distribuído e partilhado por todo o corpo. Dessa maneira, o crente deve pôr tudo quanto é do seu poder à disposição dos irmãos, não fazendo uso disso unicamente para si, mas sempre com a nobre a clara intenção de que propicie o bem comum da igreja.

Portanto, para nos orientarmos na prática do bem e das ações humanitárias, adotemos esta norma: de tudo o que o Senhor nos deu com o que podemos ajudar o nosso próximo, somos despenseiros ou mordomos, sendo que teremos que prestar contas de como nos desincumbimos da nossa responsabilidade. E mais: não há outra maneira recomendável de administrar o que recebemos senão a de seguir a norma do amor. Em decorrência disso, não somente juntaremos os esforços para beneficiar o nosso próximo à solicitude que aplicamos com vistas ao nosso próprio proveito, mas também sujeitaremos o nosso proveito ao dos demais.

E realmente, para nos mostrar que essa é a maneira de administrar bem e devidamente o que ele nos dá, Deus a recomendou antigamente ao povo de Israel, mesmo com referencia aos menores beneficio que ele lhe fazia. Recordemos que ele ordenou que fossem ofertadas as primícias, ou seja, os primeiros frutos das colheitas, para que desse modo o povo testificasse que não lhe era lícito desfrutar nenhuma espécie de bens antes de lhe serem consagrados. Ora, se os dons de Deus nos são finalmente santificados, após os havermos consagrado de nossas mãos, certamente se vê que é um abuso condenável negligenciar a referida consagração. Por outro lado, seria uma verdadeira loucura tentar enriquecer a Deus dando-lhes as coisas que temos em mãos. Visto, pois, que o bem que podemos fazer não pode subir a Deus, como diz o profeta, devemos praticá-lo em favor dos seus servos que vivem neste mundo.

14. Fazer o bem a todos, quer mereçam quer não

Além do que acima foi dito, para que não nos cansemos de fazer o bem, o que de outra forma aconteceria em pouco tempo, devemos recordar o que apóstolo Paulo logo adiante diz: “o amor é paciente... não se exaspera”. O Senhor ordena que façamos o bem a todos, sem exceção, apesar do fato de que em sua maior parte são indignos, se os julgarmos segundo os seus próprios méritos. Mas a Escritura não perde tempo e nos admoesta no sentido de que não temos que observar tais ou quais méritos dos homens, mas, antes, devemos considerar em todos eles a imagem de Deus, a qual devemos honrar e amar.

Singularmente, o apóstolo nos exorta a que a reconheçamos nos da “família da fé”, visto que neles a imagem de Deus é renovada e restaurada pelo Espírito de Cristo.

Portanto, seja quem for que se apresente a nós como necessitado do nosso auxílio, não há o que justifique que nos neguemos a servi-lo. Se dissermos que é um estranho, o Senhor imprimiu nele uma marca que deveríamos reconhecer facilmente. Se alegarmos que é desprezível e de nenhum valor, o Senhor nos contestará, relembrando-nos que o honrou criando-o à sua imagem. Se dissermos que não há nada que nos ligue a ele, o Senhor nos dirá que se coloca no lugar dele para que reconheçamos nele os benefícios que ele [o Senhor] nos tem feito. Se dissermos que ele não é digno de que demos sequer um passo para ajudá-lo, a imagem de Deus, que devemos contemplar nele, é digna de que por ela nos arrisquemos, contudo o que temos. Mesmo que tal homem, além de não merecer nada de nós também nos fez muitas injúrias ultrajantes, ainda assim isso não é causa suficiente para que deixemos de amá-lo, agradá-lo e servi-lo. Porque, se dissermos que ele não merece nada disso de nós, Deus nos poderá perguntar que é que merecemos dele. E quando ele nos ordena que perdoemos aos homens as ofensas que nos fizeram ou fizerem, é como se o fizéssemos a ele.

Não há outro caminho pelo qual possamos chegar a praticar o que não somente é difícil para a natureza humana, mas também lhe é totalmente repulsivo, isto é, que amemos os que nos odeiam, que devolvamos o bem pelo mal, que oremos pelos que falam mal de nós.

Só chegaremos a esse ponto se nos lembrarmos de que não devemos dar atenção à malícia dos homens, mas contemplar neles a imagem de Deus, a qual, por sua excelência e dignidade, pode mover-nos a amá-los e pode apagar todos os vícios que poderiam fazernos desviar do caminho que nos cabe seguir

15. Só o amor nos habilita a mortificar-nos.

Então, essa mortificação só terá lugar em nós quando exercermos vera caridade. O que não consiste em apenas cumprir todos os deveres da caridade, mas em cumpri-los movidos pelo verdadeiro amor. Pois pode acontecer que alguém faça ao seu próximo tudo o que deve quando se trata do cumprimento meramente exterior do dever, e, todavia estar bem longe de cumprir o seu dever movido pela razão legítima. Vê-se muito isso, pois há aqueles que querem parecer muito generosos e, todavia, não dão coisa alguma sem lançar em rosto, seja pelo semblante altivo, seja por palavra soberba. Atualmente chegamos a esta desgraça, que a maioria não dá nenhuma esmola senão acompanhada de algum insulto.

Perversidade intolerável, mesmo entre pagãos.

Pois bem, o Senhor exige dos cristãos coisa muito diferente do que semblante alegre e amável, para tornar a sua beneficência simpática graças a um tratamento humanitário e terno. Primeiro, devem colocar-se no lugar da pessoa que tem necessidade de ajuda; segundo, que tenham dó da sua sorte como se eles próprios estiverem passando por essa situação; e, terceiro, que se deixem mover pelo mesmo sentimento de misericórdia ao ajudá-la, como se eles próprios fossem os necessitados socorridos. Quem tiver tal disposição de ânimo na ajuda que prestar a seus irmãos, não somente não contaminará a sua beneficência com qualquer laivo de arrogância ou censura, mas também não menosprezará a pessoa beneficiada por sua indigência, nem quererá subjugá-la, como se ela lhe devesse obrigação.

A verdade que não insultamos nenhum dos nossos membros enfermos, por cujo restabelecimento todo o resto do corpo trabalha, e nem por isso achamos que ele fica especialmente obrigado aos demais membros pelo empenho destes em socorrê-lo.

Porquanto o que os membros se comunicam uns aos outros não deve ser considerado como coisa gratuita, mas, antes, como pagamento e cumprimento do que a lei da natureza exige.

Daí decorre também que venceremos outro aspecto, pois não nos consideraremos livres e com as contas pagas por termos feito o nosso dever nisto ou naquilo, como geralmente se pensa. Porque o rico acredita que, depois de ter dado algo do que possui, pode dar-se por satisfeito, e então negligencia todas as outras responsabilidades, como se não lhe dissessem respeito. Ao contrário, cada um deverá considerar que é devedor ao próximo de tudo o que tem e de tudo que está em seu poder, e que não deve limitar a sua obrigação de praticar o bem, a não ser quando já não tenha recursos para isso; estes, até onde podem estender-se, devem estar subordinados ao que manda a caridade.

16. Abnegação ou renúncia com vistas a Deus.

Tratemos agora da outra parte da abnegação ou renúncia de nós mesmos, agora com relação a Deus. Já tratamos disso aqui e ali; seria supérfluo repetir tudo o que já foi dito.

Será suficiente mostrar como essa disposição nos leva à paciência e à mansidão.

Consideremos: primeiramente, enquanto procuramos meios de viver ou gozar paz e comodidade, a Escritura sempre nos faz voltar a ver a necessidade de entregar a Deus todo o nosso ser e tudo quanto temos, sujeitando a ele os nossos afetos e os sentimentos do nosso coração, para que ele os domine e os dirija soberanamente. Há em nós uma intemperança furiosa e uma cobiça desenfreada que nos levam a desejar crédito e honras, a buscar posições de poder, a acumular riquezas e a juntar tudo quanto nos parece conveniente para uma vida de pompa e de magnificência. Por outro lado, tememos e detestamos pavorosamente a pobreza, a pequenez e a ignomínia; por isso fugimos delas o mais que podemos. Por essa causa se vê quanta inquietude de espírito padecem todos aqueles que procuram dirigir a sua vida conforme o seu próprio conselho, quantos meios tentam e de quantas maneiras se atormentam, para chegar a uma situação para a qual os levam a sua ambição e a sua avareza, a fim de evitarem a pobreza e uma condição inferior.

17. A bênção de Deus nos basta.

Dado o que acima foi dito, para que os crentes não se deixem prender por esses laços, terão que seguir este caminho: primeiro, não devem desejar nem esperar nem imaginar outro meio de prosperar senão graças à bênção de Deus, é, por conseguinte, nela devem firmar-se, apoiar-se e descansar. Pode parecer que a carne é em si suficiente para levar a efeito a sua intenção, quando aspira a honras e riquezas, confiante em que as pode obter por seu engenho e arte, ou quando ela faz esforços para isso, ou quando é ajudada pelo favor dos homens. Entretanto, o certo é que todas essas coisas de nada valem e nenhum proveito nos darão, não por nosso engenho nem por nosso labor, a não ser que o Senhor os torne profícuos. Ao contrário, unicamente sua bênção achará caminho através de todos os obstáculos para nos dar bom êxito em todas as coisas.

Além disso, ainda quando pudéssemos adquirir honras e fortuna sem buscar para isso a bênção de Deus, pois, constantemente vemos os ímpios conseguirem grandes riquezas e alta posição, todavia, uma vez que nas coisas sobre as quais pesa a maldição de Deus não se pode experimentar nem uma só gota de felicidade, qualquer coisa que obtivermos nos fará infelizes, a não ser que a bênção de Deus esteja sobre nós. Ora, seria uma loucura querer algo que nos pode infelicitar.

18. A bênção de Deus é o segredo da moderação e de um viver profícuo e benéfico.

Portanto, se acreditamos que o único meio de prosperar é a bênção de Deus, e que sem ela nos sobrevirão misérias e calamidades, o que devemos fazer é deixar de desejar com sofreguidão riquezas e honras e de pôr a nossa confiança em nosso engenho ou em nossos esforços ou no favor dos homens ou na sorte. E mais, devemos pôr sempre os nossos olhos em Deus para que, sob a sua direção, sejamos conduzidos à condição na qual lhe pareça bem colocar-nos.

Disso resultará que não procuraremos conseguir riquezas nem usurpar honras a torto e a direito, pela violência, por trapaça e por outros meios escusos, mas só buscaremos obter o que não nos faça culpados diante de Deus. Porque, haverá quem espere que a bênção de Deus o ajude a cometer fraudes, rapinas e outras maldades? É, assim como a bênção divina favorece os que são retos em seus pensamentos e em suas obras, assim também o homem que a deseja deve manter-se longe de toda iniqüidade e de toda má cogitação.

Acresce que a submissa confiança na bênção de Deus nos servirá de freio para nos conter, impedindo que nos inflamemos de uma desordenada cobiça por riquezas e que labutemos ambiciosamente pela nossa exaltação. Pois, que impudente ousadia será pensar que Deus nos ajudará a obter coisas que desejamos contrariamente à sua Palavra! Longe de nós pensar que Deus favorece com a graça da sua bênção algo que ele amaldiçoa com a sua própria boca!

Finalmente, quando as coisas não sucederem conforme o nosso desejo e a nossa esperança, a presente consideração nos impedirá de deixar-nos arrastar pela impaciência e de odiar a nossa situação. Porque saberemos que fazê-lo seria murmurar contra Deus, por cuja vontade são distribuídas as riquezas e a pobreza, o desprezo e as honras.

Em suma, todo aquele que descansar na bênção de Deus, como acima foi dito, não desejará obter por meios escusos e maus nenhuma das coisas que em geral os homens cobiçam desenfreadamente, pois sabe que esses meios não lhe darão nenhum real proveito. E se lhe advier alguma prosperidade, não a imputará aos seus esforços diligentes, nem à sua capacidade, nem à sorte, mas reconhecerá agradecido que lhe vem de Deus.

Por outro lado, se ele não consegue progredir, e até regride, enquanto outros conseguem tudo o que querem, não deixará por isso de suportar com mais paciência e equilíbrio a sua pobreza do que a suportaria um ímpio por não alcançar as riquezas medíocres que almeja, que a final não são tão grandes que valha a pena desejá-las. Porque o crente fiel desconsidera com maior tranqüilidade todas as riquezas e honras do mundo porque tem o consolo de saber que todas as coisas de que decorrem da ordenação e direção de Deus visam à sua salvação.

19. A abnegação nos habilita à paciência e à moderação em todas as circunstâncias.

É necessário, porém, que os crentes não somente mantenham nessa questão essa paciência e moderação, mas também que a estendam a todas as situações a que estamos sujeitos nesta existência. Por isso, ninguém terá devidamente renunciado a si mesmo, enquanto não se render de tal modo a Deus que aceite de boa vontade que a sua vida seja governada por seu beneplácito. Quem tiver esta disposição de ânimo, aconteça o que acontecer não se considerará infeliz, nem se queixará de sua situação lançando acusações sobre Deus.

Pois quão necessária é esta maneira de sentir logo se nos tornará manifesto, se considerarmos quantos são os acidentes a que estamos sujeitos. Há mil tipos de enfermidades que nos molestam constantemente. Ora a peste nos atormenta, ora a guerra, ora geada ou o granizo torna improdutivos os campos, e, em conseqüência, a indigência nos ameaça; ora perdemos a esposa, filhos e outros parentes; às vezes o fogo irrompe em nossa casa. Essas coisas fazem com que os homens maldigam sua vida, detestem o dia em que nasceram, repudiem o céu e a luz, falem mal de Deus, e, como estão sempre prontos a blasfemar acusam-no de injustiça e crueldade.

Ao contrário, o homem crente e fiel é levado a contemplar, mesmo nessas coisas, a clemência de Deus e sua bondade paternal. E assim, ainda que se sinta consternado pela morte de todos os que lhe são chegados e veja sua casa deserta, não deixará de bendizer a Deus. Antes se dedicará a meditar: visto que a graça de Deus habita em sua casa, não a deixará triste e vazia; ainda que as suas vinhas e suas lavouras sejam destruídas pela geada, pela saraiva ou por qualquer outro tipo de tempestade, prevendo-se por isso o perigo de fome, ainda assim ele não perderá o ânimo e não ficará descontente com Deus.

Em vez disso, persistirá em sua firme confiança, dizendo em seu coração: apesar disso tudo, estamos sob a proteção de Deus, somos “ovelhas de sua mão” e “rebanho do seu pastoreio”. Por mais grave que seja a improdutividade da terra, ele sempre nos dará o sustento. Mesmo que o crente padeça enfermidade, não se deixará abater pela dor nem se deixará arrastar pela impaciência e queixar-se de Deus. Ao contrário, considerando a justiça e a bondade do Pai celestial nos castigos que ministra, o crente fiel se deixará dominar pela paciência.

Em resumo, sabedor de que tudo provêm da mão do Senhor, o que quer que lhe advenha o crente fiel receberá com o coração sereno e não ingrato ou ressentido, não se dispondo a resistir à ordenação daquele a quem uma vez se entregou confiante. Com maior razão, longe esteja do crente a estulta consolação dos pagãos qual seja: para suportar com paciência as adversidades, atribuí-las à sorte. Os filósofos argumentam nesse sentido afirmando que seria loucura rebelar-se contra a sorte [ou a deusa Fortuna] a qual é impulsiva e cega, e lança ao acaso o seus dardos contra bons e maus, indiscriminadamente.

Ao contrário, um ditame da verdadeira piedade cristã é que somente a mão de Deus conduz e governa a boa ou má sorte, lembrando que a sua mão não age de maneira impetuosa e inconsiderada, mas dispensa o bem e o mal segundo uma justiça sabiamente ordenada.

20. Levar pacientemente cada dia a sua cruz é um dos componentes da abnegação do cristão. A dedicação do cristão deve subir a um ponto ainda mais alto, para o qual Cristo chama todos os que lhe pertencem. Chama-os para que cada qual leve a sua cruz. Porque todos quantos o Senhor adotou e recebeu na comunidade dos seus filhos devem dispor-se e preparar-se para uma vida dura, laboriosa e repleta de labutas e de infindáveis espécies de males. É da vontade do Pai celestial exercitar assim os seus servos, a fim prová-los. Começou a agir dessa forma com Cristo, seu Filho, e depois com todos os demais. Porque, apesar de ser ele seu Filho amado, em quem sempre se agradou, vemos que não foi tratado com brandura concessões indulgentes neste mundo. A tal ponto que se pode dizer que ele não somente padeceu constante aflição, mas também que toda a sua vida foi uma espécie de cruz perpétua. Como, então, vamos querer isentar-nos da condição à qual se sujeitou Cristo, nossa Cabeça? Ainda mais quando nos lembramos de que se sujeitou a isso por nossa causa, para dar-nos exemplo de paciência! Por isso o apóstolo anuncia que Deus predestinou todos os seus filhos para esta finalidade: que se façam semelhantes a Jesus Cristo.

Desse fato nos advém uma singular consolação. É que, sofrendo todas as misérias em geral descritas como coisas adversas e más, co-participemos da cruz de Cristo para que, assim como ele passou por um abismo repleto de todos os males para entrar na glória celestial, assim também nós cheguemos lá por meio de muitas tribulações. Noutra passagem o apostolo Paulo nos ensina que quando experimentamos certa participação nas aflições de Cristo, ao mesmo tempo nos é dado captar o poder da sua ressurreição. E que quando participamos da Sua morte, preparamo-nos dessa maneira para chegar à sua eternidade gloriosa. Quão grande é a eficácia desta realidade, para suavizar todo o amargor que poderia haver na cruz – ter a convicção de que, quanto mais formos afligidos e quanto mais misérias sofrermos, mais certos e seguros estaremos de que estamos unidos a Cristo! Pois quando temos real comunhão com ele, as nossas adversidades não somente se tornam bênçãos, mas também nos ajudam grandemente a progredir em nossa salvação!

21. A cruz assinala marcantemente a presença da Soberana graça de Deus em nossa vida.

Lembremo-nos de que o Senhor Jesus não tinha necessidade nenhuma de levar a cruz e de sofrer tribulações, exceto para atestar e comprovar sua obediência a Deus, seu Pai. Mas por muitas razões nos é necessário sofrer perpétua aflição nesta vida.

Primeiro, como somos por demais inclinados por natureza a nos exaltar e atribuir tudo a nós mesmos, se a nossa fraqueza não for demonstrada de maneira patente, depressa avaliaremos exageradamente o nosso poder e virtude e não duvidaremos de que vamos permanecer invencíveis frente a todas as dificuldades que se nos anteponham. Daí sucede que nos elevamos firmados numa vã e estulta confiança na carne, o que a seguir nos incita a orgulhar-nos contra Deus, como se a nossa capacidade fosse suficiente para nós, sem a sua graça.

Não há melhor meio pelo qual ele põe abaixo a nossa arrogância do que mostrar-nos experimentalmente como somos fracos e frágeis. Por isso ele nos aflige, quer nos ocasionando afrontas vergonhosas, quer pela pobreza, ou doença, ou perda de parentes, quer por outras calamidades, de tal modo que logo sucumbimos, visto que não temos forças para resistir. Então, humilhados e agora humildes, aprendemos a implorar seu poder, a única força que nos habilita a subsistir e a manter-nos firmes sob o peso desses tão pesados fardos.

Até os mais santos, embora reconheçam que a sua firmeza se funda na graça do Senhor e não em seu próprio poder, ainda assim tenderiam a confiar demais em sua força e em sua constância, se o Senhor não os conduzisse a um conhecimento mais correto sobre si mesmos, provando-os pela cruz. E, no caso de se jactarem, concebendo a seu próprio respeito uma opinião de firmeza e perseverança quando tudo lhes vai bem, depois de passarem por alguma tribulação reconhecem que aquilo não passava de hipocrisia.

Temos aí, pois, a maneira pela qual os santos são advertidos de sua fraqueza por tais provações, para que aprendam a humilhar-se e a despojar-se de toda perversa confiança na carne e se rendam totalmente à graça de Deus. Então, havendo-se rendido, sentem a presença do poder de Deus, no qual encontram satisfatório refúgio e fortaleza.

22. A cruz produz em nós perseverança e experiência.

É o que o apóstolo quer dizer quando declara que “a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência”. Como o Senhor prometeu aos que nele crêem assisti-los nas tribulações, eles experimentam a realidade dessa promessa quando perseveram com paciência, sustentados por sua mão, cientes de que não o poderiam fazer por suas forças. A perseverança é, pois, uma prova de que Deus verdadeiramente presta o socorro que lhes prometeu, sempre que se faz necessário. Com isso é confirmada e fortalecida a sua esperança, considerando que seria uma grande ingratidão não confiar na veracidade futura de Deus, tendo já sido comprovada a sua firmeza e imutabilidade.

Já vimos aí, então, quantos benefícios nos provêm da cruz, como numa corrente ininterrupta. Destruindo a falsa opinião que naturalmente concebemos sobre a nossa própria virtude e capacidade, e desmascarando a nossa hipocrisia, que nos seduz e nos engana com suas lisonjas, a cruz elimina a confiança em nossa carne, confiança assaz perniciosa. Depois, havendo-nos humilhado dessa forma, ensina-nos a descansar em Deus que, sendo como é o nosso real fundamento, não nos deixa sucumbir nem desanimar.

Dessa vitória segue-se a esperança. Pois visto está que o Senhor, tendo cumprido o prometido, estabelece como certa e segura a sua veracidade quanto ao futuro.

Com certeza, ainda que só houvesse essas razões, vê-se quão necessário é o exercício da cruz. Porquanto não é pequena bênção que o nosso amor a nós mesmos, amor que nos cega, seja extirpado, para que reconheçamos adequadamente a nossa debilidade; que tenhamos bom discernimento dela para aprendermos a desconfiar de nós mesmos; que, desconfiando de nós mesmos, ponhamos a nossa confiança em Deus; que nos apoiemos em Deus com segura e firme confiança, de coração, para que, mediante seu auxilio, perseveremos vitoriosos até o fim; que permaneçamos firmes em sua graça, e assim saibamos e reconheçamos que ele é verdadeiro e fiel em suas promessas; e que tenhamos como certas e manifestas as suas promessas, para que dessa forma a nossa esperança seja confirmada e fortalecida.

23. A cruz prova a nossa paciência e nos ensina a obediência.

O Senhor tem ainda outro motivo para afligir os seus servos, qual seja, provar sua paciência e ensinar-lhes a obediência. Não que eles possam ter outra obediência além da que lhes é dada; agrada ao Senhor, porem, mostrar e atestar as graças que dá aos seus que nele crêem, a fim de que não permaneçam ociosos e fechados em si mesmos. Por isso, quando ele fala da virtude da perseverança com que dotou seus servos, declara que prova a paciência deles. Disso procedem as expressões referentes ao fato de que ele provou Abraão e, viu sua piedade; visto que não se negou imolar seu filho para agradar ao Senhor. Pela mesma razão o apóstolo Pedro declara que a nossa fé não é menos provada pela tribulação que o ouro pelo fogo.

Ora, quem negará que é de toda conveniência que um dom tão excelente como esse, dado pelo Senhor aos seus servos, seja posto em uso, e assim se torne notório e manifesto? De outro modo, os homens jamais o apreciariam como convém. Ora, se o Senhor tem justa razão para dar importância às virtudes que colocou em seus servos, para que as exercitem e não fiquem fechados em si mesmos tornando-as inúteis, vemos que não é sem motivo que ele envia aflições, sem as quais seria nula sua paciência ou sua perseverança.

Digo também que a cruz ensina aos cristãos a paciência, pois assim aprendem a viver, não para agradar os desejos do seu coração, mas para agradar a Deus. É evidente que se todas as coisas lhes sucedessem como gostariam, nunca saberiam o que é seguir a Deus. Note-se que Sêneca, filósofo pagão, disse que antigamente, quando se queria exortar alguém a suportar pacientemente as adversidades, costuma-se citar este provérbio: “É necessário seguir a Deus”. Com isso os antigos queriam dizer que o homem se submete real e finalmente ao jugo do Senhor quando se deixa castigar e voluntariamente oferece mãos e costas aos seus açoites. Ora, se é razoável que nos façamos obedientes em todas as coisas ao Pai celestial, não devemos negar-nos a que ele nos acostume por todos os meios possíveis a prestar-lhe obediência.

24. A cruz freia a intemperança da nossa carne.

Todavia, não enxergaríamos a grande necessidade de prestar-lhe esta obediência, se não considerássemos quão grande é a intemperança da nossa carne, predisposta a arrojar de nós o jugo do Senhor, tão logo se vê tratada com brandura. Acontece com ela o que se dá com cavalos fogosos que, depois de serem deixados por algum tempo ociosos e descansados no estábulo, tornam-se indomáveis e desconhecem o seu dono, a quem antes se sujeitavam. Em resumo, o que o Senhor lamentava haver acontecido com o povo de Israel vê-se costumeiramente em todos os homens – que, engordando muito pelo trato generoso, voltam-se contra aquele que os tratou.

Certo é que convinha que a generosidade de Deus nos levasse a considerar e amar a sua bondade. Mas, visto que a nossa ingratidão é tão grande que, ao sermos beneficiados pela indulgência de Deus, somos mais corrompidos do que estimulados à prática do bem, é mais que necessário que ele nos freie com rédeas firmes e sempre nos mantenha sob algum tipo de disciplina, para que não deixemos atravessar a nossa petulância. Por essa causa, para que não fiquemos orgulhosos por uma grande abundância de bens, para que as honras não nos tornem arrogantes, e para que os ornamentos do corpo e da alma não gerem em nós alguma forma de atrevimento insolente, o Senhor intervém e impõe ordem, refreando e dominando, com o remédio da cruz, a loucura da nossa carne. E isso ocorre de diversas maneiras, conforme Deus considere benéfico e salutar em cada caso. Porque nem todos estamos tão enfermos como outros, nem padecemos o mesmo tipo de enfermidade.

Portanto, não é necessário aplicar o mesmo tipo de cura a todos. Esse é o motivo pelo qual Deus faz uso de diferentes tipos de cruz, a uns e a outros. Todavia, como ele quer prover à saúde de todos, aplica remédios mais suaves a uns, e mais ásperos e rigorosos a outros, sem abrir nenhuma exceção, visto que sabe que todos estão enfermos.

25. A cruz previne com vistas ao futuro e corrige o passado.

Além do que foi dito, é necessário que o nosso bondoso Pai não somente trate preventivamente da nossa fraqueza, com vistas ao futuro, mas também que corrija as nossas faltas passadas, a fim de nos manter na obediência a ele. Por isso, assim que nos sobrevenha alguma aflição, devemos recordar a nossa vida passada. Procedendo dessa forma, certamente veremos que cometemos alguma falta merecedora do castigo recebido, se bem que não devemos considerar o reconhecimento do nosso pecado como o fator principal de estímulo à paciência e à perseverança. Pois a Escritura põe em nossas mãos uma consideração muito melhor dizendo que dessa maneira “somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo”.

26. A cruz é testemunho do imutável amor de Deus.

Devemos então reconhecer a clemência e a benignidade do nosso Pai, mesmo em meio ao maior amargor que pese sobre nós em nossas tribulações, visto que mesmo nessas circunstâncias ele não deixa de levar avante a nossa salvação. Porquanto ele nos aflige, não para nos perder ou destruir-nos, mas para nos livrar da condenação deste mundo. Este pensamento nos leva ao que a Escritura nos ensina noutra passagem, dizendo: “Filho meu, não rejeites a disciplina do Senhor, nem te enfades da sua repreensão. Porque o Senhor repreende a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem”. Quando ficamos sabendo que os castigos de Deus são açoites paternais, não é nosso dever tornar-nos filhos dóceis, em vez de, resistindo, imitar aqueles para os quais já não há esperança, endurecidos que estão por suas más obras? Estaríamos perdidos, se o Senhor não nos puxasse para si por meio dos seus corretivos quando caímos. E, como diz o apóstolo, somos “bastardos e não filhos”, se estamos sem a sua disciplina. Portanto, estaremos sendo muito perversos se não nos dispusermos a suportar o Senhor, quando a verdade é que ele com sua disciplina manifesta a Sua bondade e o cuidado que tem por nossa salvação.

A Escritura assinala esta diferença entre os incrédulos e os crentes fieis: aqueles, semelhantes aos antigos escravos, tendo natureza perversa, só pioram e se endurecem quando recebem açoites; estes, como filhos bem nascidos, aproveitam bem os açoites, arrependendo-se e corrigindo-se. Saibamos escolher agora entre quais deles queremos estar. Mas, visto que já tratei deste argumento noutra parte, basta tocar nele resumidamente aqui.

27. A suprema consolação: sofrer perseguição por causa da justiça.

Mas temos a suprema consolação quando sofremos perseguição por causa da justiça. Porque é quando podemos e devemos lembrar como o Senhor nos honra, dando-nos as insígnias da sua milícia.

Chamo perseguição por causa da justiça, não somente a que sofremos por defender o evangelho, mas também a que padecemos por manter toda e qualquer causa justa. Quer por defender a verdade de Deus contra as mentiras de Satanás, quer por fazermos frente aos maus em defesa dos inocentes, impedindo que sofram deles nenhuma fraude e nenhuma injuria. Sempre nesses casos Satanás fará que incorramos no ódio e na indignação do mundo, e nessas circunstâncias poremos em perigo a nossa honra, ou os nossos bens, ou a nossa vida. Que não nos pareça mal chegarmos a esse ponto em nosso serviço a Deus, e não nos julguemos infelizes, pois vem dos seus lábios a declaração de que somos bem-aventurados.

É certo de que a pobreza, considerada em si mesma, é uma desgraça. Como também desgraças são o exílio, o desprezo, a ignomínia, a prisão – e, finalmente, a morte é uma extrema calamidade. Mas quando Deus tem em vista manifestar o seu favor, nenhuma dessas coisas há que ele não torne em bem e em felicidade. Saibamos então preferir o testemunho de Cristo a uma falsa opinião proveniente da nossa carne.

Resultará dessa preferência que, a exemplo dos apóstolos, nos regozijaremos todas as vezes que formos considerados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Cristo. Porque, se nós, sendo inocentes estando com a consciência limpa somos despojados dos nossos bens pela maldade dos ímpios, aos olhos dos homens estaremos reduzidos à miséria, mas, com relação a Deus, as nossas riquezas aumentam. Se somos expulsos de nossa casa e banidos da nossa pátria, com maior cordialidade somos recebidos na família do Senhor. Se nos contrariam e nos molestam, tanto mais nos firmamos no Senhor, buscando nele refugio e forças. Se nos fazem afrontas e nos humilham, mais exaltados somos no Reino de Deus. Se morremos, abre-se para nós o portal da vida bem-aventurada.

28. Sejamos gratos a Deus pela superior consolação espiritual.

Não seria uma vergonha considerarmos menos valiosas as coisas que Deus tanto estima, comparadas com os prazeres deste mundo, que depressa se desfazem como fumaça? E como a Escritura nos anima e nos consola em todas as afrontas e calamidades a que somos submetidos em nossa luta para defender a justiça, seremos muito ingratos se não as aceitarmos pacientemente e com bom ânimo. Especialmente tendo em vista que, acima de todas as demais, essa espécie de cruz é própria dos crentes fiéis, visto que por ela Cristo quer ser glorificado neles, como diz o apóstolo Pedro.

Considere-se, porém, que Deus não exige de nós uma tão jovial alegria" que seja capaz de eliminar em nós todo sentimento de amargura e dor. Nesse caso, a paciência e a perseverança dos santos não teriam nenhum valor - numa cruz sem tormentos e sem dores, não sentindo eles nenhuma angústia quando perseguidos de alguma forma. Assim, se a pobreza não lhes fosse dura e amarga, se na doença não sentissem nenhum tormento, se não se sentissem feridos pela ignomínia, se a morte não lhes causasse nenhum horror, que força ou moderação haveria em desprezar todas essas coisas? Mas, como cada uma delas traz consigo um amargor com o qual naturalmente faz doer o coração de todos nós, nisso se demonstra a força do homem crente e fiel, pois, sendo tentado por tais agruras e tendo que enfrentar lutas tremendas, todavia, resistindo a tudo, sobrepuja e vence tudo isso." Dessa maneira se manifesta a sua paciência - se, sendo espetado por tal sentimento, não obstante se refreia como que pelas rédeas do temor de Deus, para não suceder que, deixando de lado o recato e a modéstia, cometa excessos. E então se vêem o seu gozo e a sua alegria em que, embora ferido pela tristeza e pela dor, aquiesce e se tranqüiliza sob a consolação espiritual de Deus.

29. O combate cristão: submisso e dinâmico.

Este combate, que os crentes travam contra o sentimento natural de dor, sendo marcado pela paciência e pela moderação, é muito bem descrito por estas palavras do apóstolo Paulo: "Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos".

Vemos que levar a cruz pacientemente não é urna atitude estulta nem significa não sentir dor nenhuma, como os filósofos estóicos tolamente descreviam no passado o homem magnânimo, que, despojando-se da sua humanidade, não ligava nem para a adversidade nem para a prosperidade, nem se havia tristeza ou alegria, ou, melhor dizendo, era destituído de sentimento, como uma pedra. E que proveito tiveram dessa “tão elevada” sabedoria? Na verdade pintaram um simulacro ou uma falsa representação da paciência, coisa que jamais se viu nem se poderá ver entre os homens. O que de fato fizeram foi que, pretendendo ter uma paciência tão admirável, eliminaram o uso da verdadeira paciência" entre os homens.

Existem hoje em dia cristãos semelhantes àqueles estóicos, que consideram um mal. Não somente gemer e chorar, mas também entristecer-se e preocupar-se ou mostrar solicitude.

Essas opiniões anti-sociais em geral procedem de pessoas ociosas que, dedicando-se mais a especular que a pôr mãos à obra, só podem produzir fantasias como essa.

30. Ensino e exemplo de Jesus Cristo.

De nossa parte, nada temos com essa dura e rigorosa filosofia, condenada pelo Senhor Jesus não só por palavras, mas também por seu exemplo. Pois ele mesmo gemeu e chorou, tanto por seus próprios sofrimentos como pelos de outros, e não ensinou coisa diferente aos seus discípulos, como se vê nestas palavras: "Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará". E para que ninguém visse nenhum mal nisso, declarou que são bem-aventurados os que choram. O que não é de admirar, porque, se devêssemos condenar toda sorte de lágrimas, que juízo faríamos do Senhor Jesus, de cujo corpo brotaram gotas de sangue? Se vamos julgar como infidelidade ou falta de fé toda manifestação de temor, como qualificaremos o tremendo horror que se apoderou dele? Como aprovaremos esta sua confissão: "A minha alma está profundamente triste até à morte"?

31. A paciência e a perseverança cristãs coadunam-se com a prazerosa aceitação da vontade de Deus.

Quis dizer essas coisas para impedir que os bons de coração se desesperem, e para que não renunciem ao exercício da paciência por não poderem se desfazer do sentimento natural de dor. Agora, o que acontece com os que consideram, paciência urna tolice e que confundem o homem forte e corajoso com um tronco de árvore, é que eles ficam completamente desanimados quando é necessário que demonstrem paciência. A Escritura, ao contrário, louva a paciente tolerância dos santos quando, sendo tremendamente afligidos pela dureza dos seus males, não se deixam abater nem desfalecer; quando são espetados por grande amargura e, contudo, demonstram gozo espiritual; c quando, pressionados por forte angústia, nem por isso perdem o alento, regozijando-se na consolação de Deus. Entretanto, isto lhes causa repulsa: que lhes fuja o afeto natural e que tenham horror de tudo o que lhe é contrário. Por outro lado, a piedade cristã os impulsiona a obedecer à vontade de Deus, mesmo em meio a estas dificuldades. Sobre a repulsa acima referida Jesus Cristo se expressou quando disse ao apóstolo Pedro: "Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres" [Jo 2 I. I 8). Não é nem um pouco provável que o apóstolo Pedro, que haveria de glorificar a Deus com sua morte, tenha sido arrastado a isso à força e contra o seu querer, pois, se fosse assim, o seu martírio não mereceria muito louvor. Todavia, ainda que obedecesse ao mandado de Deus com ânimo forte e alegre, considerando que ainda não se havia despojado da sua humanidade, ficou dividido por um duplo desejo. Porque, enquanto pensava na morte cruel que deveria sofrer, enchia-se de horror, e bem que gostaria de escapar. Por outro lado, quando considerava que a essa morte era chamado por ordem de Deus, dispunha-se a apresentar-se a ela voluntariamente, e até com alegria, pondo sob seus pés todo o temor. Portanto, se queremos ser discípulos de Cristo, devemos empenhar-nos no sentido de que o nosso coração se encha de tal reverência e obediência a Deus que nos habilite a dominar e subjugar todos os sentimentos contrários ao seu beneplácito." Decorre disso que, em qualquer tribulação que estejamos, mesmo na maior aflição de alma que seja possível alguém sofrer, não deixaremos de perseverar em nossa paciência. As adversidades sempre nos causarão agrura e sofrimento. Por essa causa, quando formos afligidos por enfermidades, gemeremos e choraremos, e desejaremos ser curados; quando formos oprimidos pela indigência, sentiremos alguns aguilhões nascidos da perplexidade e da preocupação. Semelhante mente, a humilhação, o desprezo e todas as formas de injúria que nos causem nos farão sentir dor no coração. Quando morrer algum parente ou amigo. não deixaremos de derramar lágrimas por ele, atendendo à lei da natureza. Mas sempre chegaremos a esta conclusão: “Como, porém, Deus o quis, sigamos a sua vontade”. E é necessário que esse pensamento intervenha mesmo em meio às punções de dor, às lágrimas e aos gemidos. para que o nosso coração seja movido a conduzir-se com alegria sob as coisas que dessa forma o tenham entristecido.

32. Diferença entre a paciência Cristã e a dos filósofos

Visto que baseamos a principal razão para levar pacientemente a cruz na consideração da vontade de Deus, devemos definir em poucas palavras a diferença existente entre a paciência cristã e a filosófica. Bem poucos filósofos chegaram ao ponto de entender que os homens são exercitados pela mão de Deus mediante as aflições, pelo que nos cabe obedecer à sua vontade. Mas, mesmo aqueles que chegaram a entender isso, não apresentam outra razão senão esta: é necessário que assim seja. Ora, que quer isso dizer senão que é necessário ceder a Deus porque em vão tentaríamos resistir a ele? Porque, se obedecêssemos a Deus simplesmente porque é necessário, assim que pudéssemos fugir deixaríamos de lhe prestar obediência. Mas a Escritura determina que consideremos outra coisa própria da vontade de Deus, qual seja, sua justiça equânime; e segue-se a isso a atenção que ele dedica à nossa salvação. Isso explica por que nos são feitas estas exortações cristãs: quando a pobreza, o exílio, a prisão, os ultrajes, a doença. a perda de entes queridos ou outras formas de adversidade nos atormentem, consideremos que nada destas coisas nos acontece senão pela vontade e pela providência do Senhor.' Além disso, devemos crer que Deus não faz coisa alguma que não seja pela reta justiça por ele ordenada. Por quê? Ora, os pecados que cometemos diariamente não merecem castigo muito mais rigoroso e que este seja aplicado com muito maior severidade do que a que ele usa ao castigar-nos? Não é bom e justo que a nossa carne seja dominada e permaneça debaixo de jugo para que não se extravie e não seja levada à intemperança, segundo os impulsos da natureza não regrada? A justiça e a verdade de Deus não são dignas de que soframos por elas? Se a justiça equânime de Deus se manifesta em todas as nossas aflições, como é óbvio que se manifesta, não podemos murmurar nem rebelar-nos' sem cometer iniquidade.

Portanto, não demos ouvidos a esta fria canção dos filósofos: devemos sujeitar-nos, porque é inevitável. Mas atendamos a esta exortação vívida e plenamente eficaz: devemos obedecer, porque não nos é lícito resistir.

Devemos ter paciência, visto que a impaciência é rebelião contumaz contra a vontade de Deus.

Ora, como só gostamos verdadeiramente do que sabemos que é bom e salutar para nós, o Pai de misericórdias também por esse meio nos consola, declarando que naquilo em que ele nos aflige pela cruz provê e encaminha a nossa salvação. E então, se as tribulações são salutares para nós, por que não havemos de recebê-las com coração sereno e grato? Por isso, suportando-as pacientemente, não nos rendemos a elas porque isso é inevitável, mas aquiescemos a elas de bom grado, seguros de que visam ao nosso bem.

Digo, pois, que estas considerações farão com que, quanto mais o nosso coração for envolvido na cruz pelos sofrimentos que por natureza lhe são próprios, tanto mais se dilatará de gozo espiritual. Daí se seguirá a ação de graças: que não pode subsistir sem alegria. E assim, se o louvor do Senhor e a ação de graças só podem provir de um coração alegre e feliz, e nada no mundo lhes pode ser empecilho invencível, vê-se quão necessário é temperar o amargor da cruz com a alegria espiritual.

33. As presentes condições levam-nos a meditar na vida futura

Além das ponderações acima registradas, toda e qualquer aflição que nos sobrevenha deve levar-nos a ter em vista este propósito: habituar-nos a desprezar a vida presente de modo que nos sintamos incentivados a meditar na vida futura. Porque, visto que o Senhor sabe muito bem como somos propensos a um amor cego e até brutal por este mundo, ele faz uso de um recurso muito apropriado para nos despertar da nossa preguiça espiritual, a fim de que não fiquemos ligados demais a esse estulto amor.

Certamente não há entre nós quem não queira ser considerado como alguém que durante toda a sua vida aspira à eternidade celestial e se esforça para lá chegar. Porque nos causa vergonha em nada sermos superiores aos animais; cuja situação não seria nem um pouco inferior à nossa, se não tivéssemos esperança da vida após a morte numa eternidade feliz.

Entretanto, se examinarmos os propósitos, as deliberações, os empreendimentos e as obras de cada um, não veremos nada mais que pura terra. Pois bem, essa estupidez procede do fato de que o nosso entendimento se deixa cegar pelo vão brilho das riquezas, das honras e das posições de poder em sua aparência exterior, e assim não conseguimos enxergar mais longe. E também o nosso coração, tomado pela avareza, pela ambição e por outras cobiças perversas, prende-se de tal modo a este mundo que não consegue elevar os olhos. Finalmente, estando toda a nossa alma envolvida pelos prazeres da carne e como que comprometida com eles, busca a sua felicidade na terra.

Então o Senhor, para impedir esse mal, mostra a seus servos a vaidade da vida presente, disciplinando-os constantemente por meio de diversos sofrimentos, para que não esperem paz e tranquilidade nesta existência. Ele permite que muitas vezes o mundo seja assolado e atormentado por guerras, tumultos, banditismo e outros males, para que os seus servos não desejem com muita cobiça as riquezas que realmente de nada valem, nem se acomodem passivamente às que já possuem. Ele os reduz à indigência, já pela esterilidade do solo, já pelo fogo, já por outros meios; ou os mantém em posição mediana ou na mediocridade. Para que não abusem dos prazeres da vida conjugal, ou lhes dá mulheres rudes e ruins de cabeça, que os atormentam; ou lhes dá filhos maus, que os humilham; ou os aflige tirando do seu convívio mulher e filhos! Se em todas essas coisas ele os trata com brandura, todavia, para que não se ensoberbeçam deixando-se levar pela vanglória, ou para que não desenvolvam autoconfiança desordenada, adverte-os por meio de enfermidades e perigos, e coloca diante dos seus olhos quão frágeis e efêmeros são os bens sujeitos à mortalidade.

Portanto, teremos grande proveito da disciplina da cruz quando aprendermos que a presente vida, considerada cm si mesma, está repleta de inquietações, problemas e misérias, e que, em nenhum aspecto, é verdadeiramente feliz; que todos os bens deste mundo são transitórios, incertos, frívolos e envoltos em infindos males. Por isso tudo, concluímos que aqui não devemos nem procurar nem esperar nem lutar por coisa alguma, e que é pela nossa coroa que devemos alçar os olhos ao céu. Porque o certo é que o nosso coração não se sentirá movido a desejar a vida futura e nela meditar, enquanto não for movido a desprezar a presente vida.

34. Entre céu e terra não há meio termo

Não há meio termo entre estes dois extremos: ou menosprezamos a terra ou ficamos apegados a ela com um amor desordenado. Por isso, se temos algum interesse pela imortalidade feliz, devemos esforçar-nos diligentemente para que nos libertemos desses laços, perniciosos. Ora, visto que a presente vida sempre nos pressiona por meio de prazeres para atrair-nos, e há nela forte aparência de amenidade, graça e dulçor com o que pretende seduzir-nos, temos grande necessidade de freqüentemente retirar-nos das coisas do mundo para que não sejamos arrastados e como que enfeitiçados por tais afagos e lisonjas. Porque, rogo ao leitor que me diga, que aconteceria se gozássemos aqui uma felicidade perpétua, pois, sendo espetados constantemente pelas esporas de tantos males, mal podemos dar-nos conta da nossa miséria. Não são somente os doutos que reconhecem que a vida humana é semelhante à sombra fugidia ou à fumaça que se esvai, mas também o sabe o povo comum, para o qual essa verdade já se tornou proverbial. E como se via que o conhecimento disso é de grande utilidade, tem sido celebrada com muitas e belas

sentenças.

Não obstante, não há nada no mundo que negligenciemos mais ou de que nos lembremos menos. Porque tudo o que aqui empreendemos o fazemos como se estivéssemos estabelecendo a nossa imortalidade na terra. Se participamos dos funerais de alguém, ou se passeamos entre os túmulos de um cemitério, tendo assim uma imagem da morte diante dos nossos olhos, reconheço que nessas circunstâncias filosofamos extraordinariamente sobre a fragilidade desta vida. Se bem que nem sempre fazemos isso, porque por vezes, ocorre que estas coisas não nos comovem nem um pouco. Mas, quando isso acontece. O resultado é uma filosofia transitória e, mal lhe damos as costas, ela se desvanece e dela não fica nada em nossa lembrança. E assim, esquecendo-nos, não somente da morte, mas também da nossa própria mortalidade, como se jamais tivéssemos ouvido falar dessa nossa condição, tornamos a nos firmar numa tola segurança e confiança na imortalidade terrena. Entretanto, se alguém nos cita o provérbio antigo que diz que o homem é um animal de um dia, nós o aceitamos sem vacilar e de tal modo que a idéia de que vamos viver perpetuamente permanece fixa em nosso coração.

Quem negará, então, que é muitíssimo necessário, não somente que sejamos admoestados, mas também que sejamos persuadidos por tantas experiências quantas forem possíveis, de quão infeliz é a presente condição do homem? Pois, ainda quando estamos convencidos disso, a duras penas deixamos de ter grande admiração por este mundo e por pouco não ficamos atônitos ao contemplá-lo como se ele contivesse a mais completa felicidade! Ora, se é preciso que o Senhor nos instrua dessa forma, é nosso dever dar ouvidos às suas exortações pelas quais ele nos desperta da nossa negligência a fim de que, desprezando o mundo, seja a nossa grande aspiração meditar de coração na vida futura. O cristão não odeia a vida presente na qual Deus Manifesta o seu amor. Todavia, os crentes devem habituar-se a um desprezo pela vida presente que não lhe gere ódio a ela, nem ingratidão a Deus. Porque, conquanto esta vida esteja, cheia de misérias sem fim, com razão é contada com as bênçãos de Deus, bênção que não devemos menosprezar. Por isso, se não reconhecemos nela nenhuma manifestação da graça de Deus, somos culpados de grande ingratidão. Para os crentes ela deve ser considerada singularmente como um testemunho da bondade do Senhor, visto que, em todos os seus aspectos foi destinada a promover a nossa salvação. Pois o Senhor, antes de nos revelar plenamente a herança da glória eterna, quer declarar-se nosso Pai em coisas menos importantes; isto é, nas bênçãos que de suas mãos recebemos diariamente. Sendo, então, que esta vida nos serve para nos apercebermos da bondade de Deus, iremos nós achar que ela não contém em si nenhum bem?

Portanto, devemos ter tal sentimento e afeto que nos leve a considerar a presente vida como um dom da benignidade divina, dom que não devemos repudiar. Porque, mesmo que não houvesse testemunhos da Escritura, a própria natureza nos exorta no sentido de que devemos render graças a Deus - porque nos criou e nos colocou neste mundo; porque nos sustenta e nos preserva nele; e porque nos supre de tudo quanto nos é necessário para a nossa subsistência na terra.

Acrescente-se esta razão muito mais importante: considerarmos que Deus aqui nos prepara para a glória do seu Reino. Porque outrora ele ordenou que aqueles que hão de receber a coroa no céu, lutem primeiro na terra, para que não tenham a vitória final enquanto não enfrentarem as dificuldades do combate cristão e de terem obtido a vitória.

Ainda outra razão tem seu peso. É a seguinte: começamos a apreciar aqui o dulçor da sua benignidade, demonstrada por suas bênçãos, e dessa forma somos incitados a esperar e a desejar a revelação plena e completa. Após havermos fixado esta verdade, qual seja, que a vida terrena é um dom da clemência divina, pelo qual ficamos obrigados a Deus, a quem devemos demonstrar a nossa gratidão, chega então o momento de condescendermos em considerar a infeliz condição desta existência, para que nos desvencilhemos' desta grande cobiça à qual, como já demonstramos, somos naturalmente propensos. E tudo quanto tirarmos do amor desordenado por esta vida, é necessário transferir ao amor pela vida celestial.

Nem se compara a gloria futura com a vida na terra!

Reconheço que, conforme o sentir humano, julgaram bem os que consideravam como o primeiro e supremo bem não nascer, e o segundo, morrer quanto antes. Porque, como eram pagãos, destituídos da luz de Deus e da religião verdadeira, que poderiam ver na vida terrena senão miséria e horror? Igualmente, não é sem motivo que os citas choravam o

nascimento dos seus filhos e, quando morria algum dos seus pais, alegravam-se e realizavam festa solene; mas isso não lhes aproveitava nada. Porque, como lhes faltava a verdadeira doutrina da fé, não viam como algo que em si não dá felicidade nem é desejável torna-se em segurança e paz para os crentes. Por isso o desespero era a conclusão a que chegavam.

Então, que os servos de Deus, ao considerarem esta vida mortal, vendo que só tem a oferecer miséria, busquem sempre como sua meta dedicar-ser mais e com mais disposição a meditar na vida futura e eterna. Quando as compararem, não somente estarão capacitados a negligenciar a primeira, mas também a desprezá-la, e a não lhe dedicar nenhuma estima em detrimento da segunda. Porque, se o céu é a nossa pátria, que outra coisa é a terra, senão exílio e desterro? Se partir deste mundo é entrar na verdadeira vida, que outra coisa é a terra senão um sepulcro? E demorar-se nele, que outra coisa é senão soterrar-se na morte? Se a liberdade consiste em ficar livre deste corpo, que outra coisa é o corpo senão uma prisão? Se fruir a presença de Deus é a felicidade suprema. Não é uma tremenda infelicidade não fruí-Ia? Ora, é certo que enquanto estivermos neste corpo.

estaremos distantes de Deus.2. Por tudo isso, se compararmos a vida terrena com a vida celestial, não haverá dúvida de que aquela pode ser desprezada e considerada pouco menos que esterco. Lembremo-nos, porém. de que não devemos odiá-la, exceto no que ela nos retém em sujeição ao pecado. Se bem que não é próprio imputar-lhe essa culpa.

O caso é que, diga-se o que se disser, apesar do cansaço ou fastio que acaso sintamos deste mundo, vivamos de maneira agradável a Deus e cuidemos para que o nosso tédio não nos leve à murmuração e à impaciência.' Porque é como se estivéssemos num local de temporada no qual o Senhor nos colocou e onde devemos permanecer até quando ele nos chamar de volta. O apóstolo Paulo lamenta o fato de estar preso ao corpo por mais tempo do que ele gostaria. e suspira de ardente desejo de libertação. Todavia, em sua obediência à vontade de Deus, declara que está pronto a uma coisa e à outra, pois se reconhece devedor a Deus e se dispõe a glorificar o seu nome, quer pela vida quer pela morte. Ora, cabe ao Senhor determinar o meio pelo qual deve ser glorificado. Por isso nos convém viver e morrer para ele, deixando aos cuidados do seu beneplácito tanto a nossa vida como a nossa morte. Todavia, façamo-lo de modo que desejemos. sempre a nossa morte e nela meditemos constantemente, desprezando esta vida mortal com vistas à imortalidade futura, e estando dispostos a renunciar à vida presente sempre que isso aprouver ao Senhor, considerando que ela nos mantém sujeitos à escravidão do pecado.

37. Desejar e esperar a vida eterna é infinitamente melhor do que temer a morte Uma coisa que mais parece um prodígio monstruoso é o fato de que muitos que se gabam de serem cristãos, em vez de desejarem a morte, têm horror a ela. Mal ouvem falar dela, tremem de medo, como se fosse a maior desgraça que lhes pudesse ocorrer. Não é de se estranhar que o nosso sentir natural se abale e se espante quando ouvimos que a nossa alma deverá separar-se do corpo. Mas é intolerável a idéia de que não haja no coração do cristão suficiente luz para habilitá-la sobrepujar e dominar esse temor, como é igualmente certo haver para ele uma consolação muito maior. Porque, se considerarmos que o tabernáculo deste corpo, que é inseguro, maculado pelo mal, corruptível, de nulo valor real e sujeito à decomposição, será desfeito e destruído para depois ser restaurado e revestido de uma glória perfeita, segura, incorruptível e celestial, como a fé não nos constrangerá a apetecer ardentemente o que a natureza repudia e evita com horror? Se considerarmos que a morte nos livra de um miserável exílio para então vivermos em nosso país, sim, em nossa pátria celestial, não haveremos de conceber desse fato uma singular consolação?

Mas alguém objetará que tudo o que existe deseja permanecer como é. Reconheço isso. Por isso mesmo eu sustento que devemos aspirar à imortalidade futura, onde teremos uma condição inabalável, coisa que não se vê em parte alguma na terra. Essa é a razão pela qual os animais inferiores, e mesmo a criação inanimada, até mesmo as árvores e as pedras, possuindo algo como um senso da sua vaidade e da sua corrupitibilidade, aguardam "em ardente expectativa” o Juízo, esperando a sua redenção "para a liberdade dos filhos de Deus". E muito mais nós, que primeiro temos algo da luz natural e, além disso, somos iluminados pelo Espírito de Deus, em nosso caso, não elevaremos os nossos olhos para

além e acima da podridão terrena?

Mas não é minha intenção discutir longamente aqui sobre tão grande perversidade. E, de fato, já no início declarei que não queria tratar aqui de cada matéria na forma de exortação.

Aconselho aos de ânimo fraco que leiam o livro de Cipriano, ao qual ele intitulou Sobre a Mortalidade, não seja o caso de que mereçam que os remeta aos filósofos, os quais demonstraram tal desprezo pela morte que os encheria de vergonha. Contudo, atenhamo-nos a esta máxima: ninguém progrediu muito na escola de Cristo senão aquele que espera com gozo e alegria o dia da sua morte e a ressurreição final. Porque o apóstolo descreve os crentes referindo-se a esse marco e meta, e a Escritura sempre nos faz lembrar isso, quando nos fala do tema da alegria cristã. "Exultai e erguei a vossa cabeça: porque a vossa redenção se aproxima". I Com que propósito, rogo ao leitor que me diga, vamos transformar em tristeza e assombro o que para Jesus Cristo é próprio para nos fazer regozijar? E se há de ser assim, por que nos gloriamos de ser seus discípulos? Retomemos, pois, ao bom senso, c, por maior repulsa que isso cause à nossa carne, em sua concupiscência e cegueira estulta, esperemos a vinda do Senhor como algo verdadeiramente maravilhoso. E não nos limitemos a desejá-la, mas tomara passemos a gemer e a suspirar por0 ela. Porque ele virá redentoramente e nos introduzirá na herança da sua glória, depois de nos tirar deste abismo de males e misérias sem conta.

Assumamos nosso papel de ovelhas e cordeiros do cordeiro É necessário que todos os crentes, enquanto vivem na terra, sejam como ovelhas destinadas ao matadouro, para se fazerem semelhantes a seu Chefe e Cabeça. Jesus Cristo.

Pois seriam desesperadamente infelizes, se não dirigissem seu pensamento para o Alto, para suplantarem tudo o que há no mundo e para que a sua atenção e o seu interesse transcendam as coisas da presente vida.

Muitíssimo melhor será se os crentes elevarem seus pensamentos para além das coisas terrenas, mesmo quando virem florescer os ímpios com suas riquezas e honras, gozando paz e tranqüilidade e vivendo em meio a prazeres e pompas. E até quando forem tratados pelos ímpios de maneira desumana, sofrerem ultrajes, forem oprimidos ou afligidos por toda sorte de afrontas humilhantes, pois, ainda assim, com os pensamentos postos no Alto, não lhes será difícil consolar-se em meio a todos esses males. Porque terão sempre diante

dos seus olhos o dia final dia em que eles sabem que o Senhor vai ajuntar todos os que nele crêem, recolhendo-os ao repouso do seu Reino, vai enxugar as lágrimas dos seus olhos, vai dar-lhes uma coroa de glória e vestes de jubilosa alegria, vai saciá-los com o dulçor indescritível dos prazeres celestiais e exaltá-los às alturas da sua glória; em suma, sabem que ele os fará participantes da sua própria felicidade. Ao contrário, lançará à ignomínia extrema os ímpios que são enaltecidos na terra, mudará seus prazeres em tormentos horríveis, seu riso e alegria em choro e ranger de dentes, seu repouso e tranqüilidade em assombrosa aflição de consciência; em suma, ele os lançará no fogo eterno e os colocará em sujeição aos crentes, que por eles foram maltratados com tanta maldade.

Certamente nisso está o nosso único consolo. Se nos privarem dele, cairemos no desânimo, ou buscaremos afago e mel em consolações vãs e inúteis, que serão a nossa ruína. Pois o próprio profeta confessou que vacilou, que os seus pés quase resvalaram, enquanto prestava atenção na felicidade atual dos ímpios, e declarou que não pôde resistir a isso enquanto não se pôs a contemplar. em sua meditação, o santuário de Deus; isto é, enquanto não passou a considerar qual será o fim dos justos e o dos ímpios.

Para concluir com poucas palavras, afirmo que a cruz de Cristo triunfa definitivamente no coração dos crentes contra o Diabo, a carne, o pecado, a morte e os ímpios quando voltam seu olhar para contemplar o poder da sua ressurreição. Ensino Bíblico sobre o uso dos bens Terrenos Dentro deste mesmo assunto, a Escritura nos ensinar também que uso devemos fazer dosbens terrenos. E não devemos negligenciar esta doutrina, visto que se relaciona com a boa maneira de ordenar a nossa vida. Porque, se temos que viver, também precisamos utilizar os recursos necessários à vida. Tampouco podemos abster-nos das coisas que mais parecem atender ao bem viver e ao bem estar, que à necessidade. Por isso precisamos estabelecer certa medida que nos permita usá-las em sã consciência, tanto para satisfazer à nossa necessidade como para propiciar-nos prazer. Essa medida nos é indicada por Deus, quando ele nos ensina que, para os seus servos, a vida presente é como uma peregrinação rumo ao Reino celestial. Ora, se só devemos passar pela terra, não há dúvida de que devemos usar os bens terrenos de tal maneira que nos ajudem a ir avante em nossa caminhada e não a retardem.

Mas, visto que esta matéria pode provocar escrúpulos e corre o perigo de ser levada de um extremo a outro, é de bom aviso firmar-nos em boa e sã doutrina que nos garanta uma solução segura. Houve bons e santos personagens que, entretanto, vendo que a intemperança dos homens se extravasa desordenadamente e sem freios quando não se lhe impõe severa restrição, querendo corrigir tão grande mal, proibiram aos homens o uso de bens materiais a não ser em caso de real necessidade. Eles fizeram isso por não terem visto outro remédio. Seu conselho provinha de boa intenção, mas agiram de maneira excessivamente rigorosa. Porque fizeram uma coisa muito perigosa, qual seja: ataram as consciências muito mais apertadamente do que as obriga a Palavra de Deus.

Por outro lado, hoje em dia há muitos que, na busca de qualquer pretexto para escusar toda a intemperança no uso das coisas externas e para deixar a carne às soltas, a qual está sempre pronta a se exceder, dão como estabelecido o seguinte artigo, com o qual não posso concordar: não devemos impor nenhuma restrição à liberdade, e que cada um faça uso dela conforme lhe permita a sua consciência e segundo lhe pareça lícito.

Regras ou princípios gerais da Escritura Reconheço que não se pode nem se deve impor à consciência fórmulas e preceitos nesta questão. Mas, visto que a Escritura nos dá regras gerais sobre o uso legítimo dos bens temporais, por que não havemos de render-nos a esse critério? O primeiro ponto que se deve adotar é que o uso dos dons de Deus não é mau se se limitar ao fim para o qual Deus os criou e os destinou, visto que os criou para nosso bem, e não para nosso mal. Portanto, ninguém terá diante de si um caminho mais certo e reto que aquele que considerar diligentemente esse fim.

Ora, se considerarmos o fim para o qual Deus criou os alimentos. veremos que ele não só quis prover à nossa necessidade. mas também ao nosso prazer e recreação. Assim, quanto ao vestuário, além de considerarmos a sua necessidade, devemos aplicar-lhes o que se vêm na relva, nas ervas. nas árvores e nas frutas. Pois, sem contar as suas outras utilidades e os benefícios que delas colhemos. Deus quis alegrar-nos a visão por sua beleza e propiciar-nos ainda outro deleite ao aspirarmos seu agradável aroma. Se isso não fosse certo o profeta não contaria entre as bênçãos de Deus "o vinho, que alegra o coração do homem" e "o azeite, que lhe dá brilho ao rosto"; a Escritura não faria a menção que faz aqui e ali da benignidade de Deus, que faz todos esses benefícios ao homem. E as próprias qualidades que todas as coisas têm por natureza mostram como devemos alegrar-nos por elas, com que finalidade e até que ponto. E vamos considerar que não é lícito sentir prazer em contemplar a beleza dada por Deus às flores? Vamos pensar que o Deus, que lhes deu tão agradável odor, não quer que o homem se deleite em aspirar o aroma que elas recendem?'

Além disso, que dizer das cores variadas - com variantes de matiz e graça? E Deus não revestiu de aspectos encantadores o ouro, a prata, o marfim e o mármore para que fossem mais nobres e mais preciosos que os outros metais e as outras pedras? Finalmente, não nos deu o Senhor muitíssimas coisas que devemos valorizar e que, entretanto, não nos são necessárias?

Deixemos de lado, pois, essa filosofia desumana que, não concedendo ao homem nenhuma utilização das coisas criadas por Deus, a não ser por sua real necessidade, não somente nos priva sem razão do fruto lícito da benignidade divina, mas também, quando aplicada, despoja o homem de todo sentimento e o toma insensível como uma acha de lenha. Mas, por outro lado, é necessário que não menos diligentemente repudiemos a concupiscência da nossa carne, que se extravasará sem medida, se for deixada sem freios.

Lembremo-nos de que, como eu já disse, há alguns que, sob o pretexto de liberdade, concedem à carne tudo quanto ela deseja.

Primeira regra para refrear a carne: Gratidão a Deus Das regras que visam refrear a carne, a primeira é a seguinte: todos os bens que temos foram criados para que reconheçamos o seu autor e magnifiquemos a sua bondade com ações de graças. Ora, onde haverá ação de graças, se por gula você se enche de vinho e comida até ficar tonto e incapaz de servir a Deus e de cumprir os deveres próprios da sua vocação? Onde estará o reconhecimento de Deus, se a carne, incitada por uma grande abundância de vis concupiscências, contamina com a sua impureza a sua mente e o seu

entendimento e o cega e lhe impede o discernimento entre o bem e o mal? Como agradeceremos a Deus por nos dar as vestes que usamos, se as revestimos de tal suntuosidade que nos envaidecemos e desprezamos as demais pessoas e se as usamos com arrogância tão provocante que passam a ser instrumentos de corrupção moral?' Como, digo e repito, poderemos ser gratos ao nosso Deus, se fixamos os olhos na contemplação da beleza das nossas roupas? E se pode dizer a mesma coisa quanto às outras espécies de bens materiais.

Vê-se, pois, que a consideração supra já é suficiente para restringir a liberdade excessiva e o mau uso dos dons de Deus.

Segunda regra para refrear a carne: meditar na imortalidade feliz Mas, o caminho mais certo e mais curto para levar o homem a desprezar a vida presente é meditar na imortalidade celestial. Dessa regra decorrem outras duas.

A primeira é que os que desfrutam deste mundo devem fazê-lo com o mínimo de apego, como se nada desfrutassem dele; os que se casam como se não fossem casados; os que compram como se não possuíssem nada, conforme o preceito do apóstolo Paulo.

A outra regra subsidiária é: aprendamos tanto a sobrelevar pacientemente e com coração sereno a pobreza, como a usar moderadamente a abundância. Aquele que ordena que desfrutemos do mundo como se não desfrutássemos nada dele, não se limita a coibir a intemperança no beber, no comer, nos prazeres, a ambição exagerada, o orgulho, o descontentamento importuno, tanto na questão de edifícios como nas vestes e no modo de viver. Ele corrige" igualmente toda preocupação e todo afeto que nos desviem ou nos impeçam de pensar na vida celestial e de aprimorar a nossa alma com os ornamentos próprios e legítimos. Com grande acerto disse antigamente Catão: onde há muita vaidade no vestir falta virtude.

Como também diz o antigo ditado que aqueles que se ocupam demasiado com os adornos do corpo pouco ou nada se preocupam com a alma.

Portanto, embora quanto à liberdade dos crentes nas coisas externas não devemos restringi-Ia mediante certas fórmulas, não obstante sua liberdade está sujeita a esta lei: que os crentes se permitam o mínimo que lhes for possível e que, por outro lado, sejam vigilantes e eliminem tudo o que é supérfluo e todo aparato dispensável de abundância, distanciando-se o mais possível da intemperança; e que tomem todo o cuidado para não transformar em obstáculos as coisas que devem prestar-Ihes ajuda.

Terceira regra para refrear a carne: paciência na pobreza; moderação na riqueza.

A outra regra será que aqueles que se acham na pobreza aprendam a suportar com paciência a sua escassez, para não se atormentarem com demasiada preocupação. Os que conseguem observar esse equilíbrio emocional têm tido não pequeno proveito da escola do Senhor. Já aquele que não aproveitou o que dela se pode aprender, dificilmente poderá ter algo que prove que é discípulo de Cristo. Porque, além do fato de que muitos outros vícios acompanham a cobiça de coisas terrenas, quase sempre sucede que aquele que não suporta com paciência a pobreza mostra o vício contrário quando se vê na" abundância. Explico isso dizendo que aquele que se envergonha de usar roupa rústica ou modesta usará com vanglória vestes finas; quem não se contenta com uma alimentação frugal atormenta-se com o desejo de melhor comida e não conseguirá conter-se quando tiver mesa mais farta e rica; quem não souber viver em condição humilde ou sem cargos públicos, não conseguirá evitar o orgulho e a arrogância, se passar a uma situação socialmente honrosa.

Por isso tudo, todos quantos desejam servir a Deus com sinceridade aprendam do exemplo do apóstolo, que sabia viver contente na abundância e na escassez; saibam, pois. Conduzir se moderadamente na abundância e ter positiva paciência na pobreza.

Outra regra: reconhecer que somos mordomos ou administradores dos bens de Deus, e agir como tais.

A Escritura tem ainda outra regra, a terceira regra ou princípio geral. pela qual devemos moderar o uso dos bens terrenos, regra da qual tratamos resumidamente quando falamos sobre os preceitos do amor cristão. Porque a presente regra nos mostra que todas as coisas nos foram dadas de tal maneira pela benignidade de Deus, e destinadas ao nosso uso e proveito, que elas nos foram deixadas como em custódia, em depósito, e chegará o dia em que deveremos prestar contas delas. Por isso devemos administrá-las tendo sempre em mente esta sentença: teremos que prestar contas de tudo o que o Senhor nos tem confiado.

Também devemos pensar em quem nos vai chamar a contas: Deus. que tanto nos exorta à 000abstinência, à sobriedade, à temperança e à modéstia, como igualmente tem condenado à execração toda sorte de intemperança, orgulho, ostentação e vaidade; por quem nenhuma administração será aprovada senão a que é regida pelo amor; e quem com sua própria boca já condenou todas as formas de prazeres que levam o coração do homem a afastar-se da castidade e da pureza. ou que embotam o seu entendimento.

A nossa vocação deve ser levada em conta em tudo quanto planejamos e azemos É também nosso dever observar diligentemente que Deus ordena que cada um de nós leve em conta a sua vocação em todas as ações da sua existência. Pois ele sabe muito bem quanto o homem se inflama de inquietação e com que facilidade passa de um lado a outro; como também sabe com quanta ambição e cobiça ele é solicitado a abarcar muitas coisas ao mesmo tempo. Por isso, para que não compliquemos tudo por nossa temeridade e loucura, ele ordenou a cada um o que fazer; estabelecendo distinções entre posições ou estados e diversas maneiras de viver. E, para que ninguém ultrapasse levianamente os seus limites, deu a tais maneiras de viver o nome de vocações. Portanto, cada qual deve considerar o seu estado ou posição como um posto estabelecido por Deus e no qual ele o colocou para que não fique girando e circulando inconsideradamente para cá e para lá a vida toda.

Pois bem, essa distinção é tão necessária que segundo ela todas as nossas obras são avaliadas por Deus, e muitas vezes de um modo contrário ao critério de julgamento filosófico ou da razão humana. Tanto as pessoas comuns como os filósofos consideram como o ato mais nobre e mais excelente que se poderia realizar é libertar o seu país da tirania. Por outro lado, o homem de vida privada ou particular que se lance contra um tirano é abertamente condenado pela voz de Deus. Contudo, não pretendo me demorar aqui relatando todos os exemplos que se poderia citar a respeito.

É suficiente que saibamos que a vocação de Deus é como que um princípio e fundamento baseados no qual podemos e devemos governar bem todas as coisas, e que aquele que não atentar para ela jamais encontrará o caminho reto e certo para desincumbir-se devidamente do seu dever. Poderá por vezes fazer algo cuja aparência exterior inspire louvor, mas não será aceito pelo trono de Deus, seja qual for o valor que os homens lhe atribuam.

Além de tudo mais, se não tivermos a nossa vocação como uma regra permanente, não poderá haver clara consonância e correspondência entre as diversas partes da nossa vida.

Assim, será muito bem ordenada e dirigida a vida de quem a conduzir tendo em vista esse propósito. Desse modo de entender e de agir nos resultará esta singular consolação: não há obra, por mais humilde e humilhante que seja, que não brilhe diante de Deus e que não lhe seja preciosa, contanto que a realizemos no serviço e cumprimento da nossa vocação.

Autor: João Calvino

Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol 4, pg 177-225.

Nesta apostila não consta as excelentes notas feitas pelo Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa do livro ‘As Institutas - Edição especial com notas para estudo e pesquisa’, ed. Cultura Cristã (www.cep.org.br), no qual foram fetais as digitações desta apostila. Vale muito comprá-la e a ler por completo.

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